Auguste Comte afirmou que "os mortos governam os vivos". Os gregos, por sua vez, acreditavam que os vivos estavam de costas para o futuro - que desconheciam -, voltados sempre para o passado, pois lá estavam sua história e suas referências formadoras.
Não sei se a afirmação aplica-se a todas as áreas da vida, mas ao menos no quesito musical estamos quase sempre voltados para o passado. Fui ontem ao Carnegie Hall para assistir a Quinta Sinfonia de Gustav Mahler, com a Staatkskapelle Berlin, sob a batuta de Daniel Barenboim. A Quinta foi uma das primeiras obras de Mahler a que tive acesso, logo depois da Primeira Sinfonia, peça que conheci em meados dos anos 80, pela mão do meu querido tio Silo, melômano e amante da música de Mahler.
No momento do célebre Adagietto (movimento que Visconti tomou emprestado para o ínicio do seu também célebre filme "Morte em Veneza"), tomado pela beleza da peça e pela qualidade da orquestra, lembrei-me como que sem motivo do meu bisavô Joaquim.
Em todas as épocas os povos sempre procuraram cultuar seus antepassados, fossem eles heróis militares, grandes artistas, hábeis comerciantes, intelectuais ou estadistas de renome. O Panteão dos heróis de cada povo dá testemunho da necessidade que as gerações têm de reverenciar os seus maiores, como que servindo de referência e inspiração às novas gerações.
De modo semelhante, na esfera familiar também pode ocorrer manifestação parecida - seja a lembrança puramente afetiva dos antepassados mais próximos, seja o culto dos feitos grandiosos e da personalidade marcante de certo ascendente familiar - e essa personalidade peculiar passa a ser reverenciada como modelo de conduta a ser imitado e emulado.
O meu bisavô Joaquim (juntamente com o Marquês de Paranaguá) é uma dessas figuras familiares arquetípicas. Seria injusto de minha parte, no entanto, deixar de mencionar os avós paternos e maternos (Augusto e João Morais), tios-avós (Correntino, Tancredo), figuras merecedoras do culto familiar pelo exemplo de vida, retidão de propósitos e legado moral que deixaram; isso para não falar de tantos outros tios e tias que deram exemplo de vida honrada e serviço ao próximo.
Volto ao Mahler: naquele momento do Adagietto, fui como que tomado pela lembrança do bisavô que nunca conheci, mas cuja figura paternal, docemente patriarcal, faz parte do imaginário familiar. Dele temos apenas as fotografias, a tradição oral familiar e os escritos que dão testemunho de sua formação, seu pensamento, sua visão de mundo. Ao mesmo tempo que tenho nele um grande modelo de varão e homem público, minha trajetória pessoal e minha autoformação (e o meu psiquismo, obviamente) levam-me a avaliar os dois pontos principais de ruptura que ele empreendeu em relação à tradição familiar: o primeiro deles foi o rompimento político.
Do vovô Joaquim recebemos lições e exemplos de grande honestidade, firmeza de caráter, tenacidade no trabalho, amor à honra, sentido de dever cívico e clareza de propósitos. Some-se a isso um amor insuperável pelo Brasil e uma fé inabalável na grandeza da nossa Pátria. Não é pouca coisa, sobretudo se comparado aos homens públicos de hoje. Nesse aspecto estamos em pleno acordo; ouso divergir dele em relação à forma de governo mais adequada ao país. E a história parece dar certa razão aos céticos do republicanismo brasileiro.
Do Marquês, desnecessário comentar sua extensa e gloriosa biografia como homem público, magistrado e político: o Piauí até hoje não foi capaz de produzir outra biografia tão fulgurante. A história do Brasil comprova-o. Eram os dois oriundos do mesmo tronco familiar, da mesma região, da mesma família. Ambos eram abolicionistas engajados. Um, monarquista intransigente; o outro, republicano convicto. Apesar de divergirem em relação à forma de governo, sempre se respeitaram e mantiveram convívio próximo, tanto na Bahia como no Rio de Janeiro. Eram acima de tudo patriotas. O Marquês foi senhor absoluto da política piauiense por quase quarenta anos; Joaquim, bastante mais jovem, começou a destacar-se um pouco antes do 15 de novembro.
Proclamada a República, o Marquês abandona a vida pública, enquanto o sobrinho inicia sua participação efetiva no novo regime. O velho dignitário, que havia assumido todos os cargos de relevância no Segundo Reinado, cedia agora a liderança política ao jovem e sonhador sobrinho, republicano de primeira hora. E assim o Nogueira, que já havia sido Deputado Provincial ainda no Império, foi Vice-Governador e Governador eventual, Deputado Federal constituinte (1891 a 1896) e Senador da República (1897 a 1906). Posteriormente seria Ministro-Tesoureiro da Imprensa Nacional. Era tão sinceramente republicano que defendia a limitação do número de mandatos eletivos, a fim de evitar a perpetuação no poder e o mandonismo daí decorrente. E deu exemplo do que pregava, recusando a candidatura que o poderia ter reconduzido a mais um mandato de Senador, em 1906.
Meu bisavô acreditava que a república seria consolidada e aperfeiçoada por novas gerações de patriotas e homens de bem. E foi aí que errou. Ainda no começo do século XX, os desmandos, a corrupção e o autoritarismo da jovem república acabaram por desfazer os sonhos dessa geração de idealistas bem intencionados, crentes na superioridade do regime republicano sobre a secular monarquia. Se ele pudesse ver o nível dos homem públicos que a república tem engendrado desde então, sobretudo nos últimos anos, e os comparasse à galeria de homens honrados e estadistas de excelência que serviram sob Pedro II, duvido que permanecesse republicano! Não resta dúvida de que o velho Marquês deve estar rindo por último, convencido de que o regime que apoiava era, de fato, muito superior. Aos livros, senhores.
A segunda ruptura com a tradição familiar deu-se por meio da religião. Abraçou, em certo momento, a fé batista - num movimento iniciado pelo seu irmão gêmeo, cuja importância sociológica é ressaltada por Gilberto Freyre no seu livro Ordem e Progresso. Afirma Freyre:
"Dos Nogueira Paranaguá a conversão à fé e à moral e aos ritos protestantes (batistas) se processou bíblica e patriarcalmente: toda uma antiga, prestigiosa e numerosa família rural do Nordeste do Brasil transferiu-se, em massa, cerca de 1890, da Igreja Católica para uma seita evangélica, num movimento que não teve até hoje o estudo sociológico que merece."
Foi tal a influência desse "protestante, severo e evangélico", com sua "austeridade quase ascética de comportamento", empenhado na divulgação das verdades do Evangelho pela ótica da nova denominação que, quando da sua morte, em 1926, o seu necrológio publicado no Jornal Batista afirmava ter morrido "o batista mais ilustre do Brasil". É quase certo supor que a denominação que adotou não tenha qualquer lembrança da importância que ele, como ex-Deputado Constituinte e Senador, teve na facilitação das tratativas entre os missionários protestantes americanos e as autoridades brasileiras da época, num período em que, não custa recordar, os cristãos não-católicos careciam de qualquer prestígio, força política ou expressão social. E como resultado dessas negociações com as autoridades federais vieram as instituições de ensino confessional, entre elas o IBI, nascido em 1920.
Do ponto de vista puramente histórico e político os batistas devem muito a Joaquim. Ele deu credibilidade e musculatura política a uma denominação incipiente e sem qualquer tradição no Brasil. E assim como a república que ele defendeu viria a trair os seus ideais de varão de Plutarco, a denominação que ele abraçou agiria de maneira insultuosa para com o seu legado moral e educacional, pelo desrespeito com que trata sua memória e seus restos mortais.
Esses restos repousam nas terras que ele doou para a instalação do Instituto Batista, idealizado por ele e pelo irmão Benjamin, instituição que marcaria época na história do Piauí e na vida de gerações de brasileiros. Junto com ele no sagrado torrão natal descansam o filho Augusto, a nora Isabel e o neto Augusto Weguelin: quatro sepulturas à procura de uma denominação séria.
Assim como a república o desapontaria, os batistas - com seu proclamado governo Congregacional e suas assembléias deliberativas - fazem pouco caso da história, ao descumprir o que fora acertado pelos missionários americanos quando da transmissão do Instituto Batista Correntino para a responsabilidade da Convenção Batista Brasileira e, em seguida, para a igreja batista de Corrente. E esta já começou a administração do espólio sagrado do IBC desonrando o Pacta sunt servanda, princípio básico de Direito Civil que prevê o cumprimento dos acordos baseados na boa-fé. Descumprimento tanto mais grave porque celebrado entre pessoas de boa-fé (a antiga Direção do IBC e o representante da Junta de Richmond) mas não honrado pelo conselho da igreja batista de Corrente, que agiu e age de má-fé.
Luta inglória a do Dr. Joaquim; o velho Marquês deve estar rindo duas vezes: enquanto o filho deste viria a ser agraciado, já na república, com o título de Conde de Paranaguá (em reconhecimento expresso da Santa Sé pelos serviços prestados à Igreja), o Dr. Joaquim não possui sequer uma reles cerca em volta da sua sepultura; apenas mato, poeira e opróbrio.
2x0 para o Marquês.