Wednesday, September 10, 2008

Considerações sobre o verão e o Metro

Os muitos compromissos profissionais e sociais me impediram de manter o blog atualizado como gostaria. E muita coisa interessante aconteceu aqui no período. Não apenas do ponto de vista do calendário eleitoral americano - agora em fase de engajada campanha, após as convenções partidárias que consolidaram os respectivos candidatos à Casa Branca.

O verão este ano foi bastante ameno e mais curto que o anterior. Confesso quase não ter sentido calor, exceção apenas ao momento em que se adentra as estações do Metro - essas, sim, sempre muito quentes e sujas. As estações do Metro, aliás, com raras exceções, são a personificação do terceiro mundo em plena Nova York. E não falo dos países emergentes, categoria que atualmente goza de boa reputação aos olhos dos especialistas em mercados promissores e economias em ascensão, caso do Brasil. Falo daqueles países pobres mesmo; aqueles que encarnam a perfeita estereotipia do desafortunado. E as estações do Metro de Nova York são o retrato do terceiro mundo em plena Manhattan. Quase sempre sujas, mal conservadas, são o resultado de uma cidade que não pode se dar ao luxo de parar para reformar-se. É preciso trocar o pneu com a bicicleta andando. Os reparos ocorrem com as pessoas circulando, numa alegoria viva do frenesi que é a vida nesta cidade eletrizante. O Metro funciona muito bem, reconheça-se; é o mais rápido e eficiente meio de transporte. Mas enquanto o trem não chega e se nos abre a porta salvadora do ar-condicionado, a gente padece, como uma espécie de pedágio cobrado a todos, indistintamente, pelo simples privilégio de morar numa cidade tão espetacular. E esses poucos (e longos) minutos de espera servem também para chamar a atenção para o caldeirão das gentes, das multidões de imigrantes e trabalhadores que entram e saem da cidade a toda hora, de todo lado, para todo lugar. Há de tudo no Metro - até tédio. Dependendo da linha, pode-se ouvir desde quartetos super afinados até os malucos de toda ordem. Nos poucos minutos gastos no Metro tem-se a experiência do convívio com o diferente, o engraçado e o bizarro. Mas o melhor mesmo é sair de lá, voltar à superfície, onde a cidade borbulha de verdade. E aqui fora a coisa melhora bastante, ainda bem.
Dizem os americanos de outros estados que o metro em NY é caótico porque caóticos são os seus usuários. Pode ser. Não deixa de ser uma afirmação com marcado tom de xenofobismo, mas pode ter a sua verdade. Sei lá. O fato é que encaro o Metro como uma espécie de ascese, um curto período em que saio da confortável bolha institucional e social em que vivo e caio na vala comum dos anônimos e desconhecidos. Não é cômodo, nem fácil (tampouco cheiroso), mas tem sua utilidade pelo choque de realidade que proporciona.

Monday, August 11, 2008

A vida é a arte do encontro - e do reencontro

Neste fim-de-semana passado estive em Halifax, Nova Escócia, uma das províncias marítimas do Canadá. Já lá havia estado, há exatos vinte anos, quando vivia na cidade de Québec e estudava na Universidade Laval.

No período de um ano em que vivi no Canadá, morei com dois canadenses de origem inglesa, também eles matriculados no programa de francês da Laval. Durante quase um ano dividimos um apartamento perto da Universidade, frequentamos as aulas de francês e, a melhor parte, nos divertimos a valer nas festas da estudantada despreocupada e cheia de energia. Pode haver combinação melhor? E foram tempos memoráveis: vida de estudante, dinheiro (curto) de estudante, histórias a aventuras de estudante. Incrível como um período de menos de um ano produziu memórias que perduram até hoje. Tinha eu 20 anos de idade; Greg e Andrew um pouco mais velhos (menos moços, no caso).

Depois do período quebequense, ainda mantivemos esporádica correspondência, com algumas poucas cartas e notícias sobre a vida e o percurso que cada um tomou. Posteriormente veio a internet e acabamos nos encontrando graças às ferramentas de busca, o que possibilitou a retomada do diálogo já quase perdido. Quando da minha mudança para Nova York ano passado, retomamos a conversa e combinamos um encontro aqui ou no Canadá, em local onde pudéssemos abrir o baú das lembranças e das aventuras quebequenses. E finalmente, depois de vinte anos, nos reencontramos em Halifax no último fim-de-semana. Foi um encontro memorável. Conheci as respectivas esposas e filhos, sogra, cunhados, sobrinhos e mães. Já não tenho mais vinte anos, Greg já quase não tem cabelos e Andrew continua o moleque de sempre, apesar de mulher e três filhos.

As distâncias entre o Brasil e o Canadá adiaram o reencontro da "banda" por duas décadas, mas a retomada da partitura deixada em Québec, em 1988, mostrou que o bom da vida são mesmo os amigos e os reencontros. Agora ninguém mais nos segura. Vai ter tournée desta banda sempre que possível, seja em Nova York, Vancouver ou Rio de Janeiro. Em 1988 éramos tão jovens e tão despreocupados com a vida (oh fortuna!) que sequer tínhamos a noção de que o tempo passa - e rápido. Tivesse eu a noção da velocidade do tempo, teria tomado mais um drinque e aumentado o som.

Friday, August 1, 2008

Bruno Tolentino

"Os maiores dentre os filósofos de nossa era, desde a confusa aurora oitocentesca (a mais sangrenta Morgenröte que houvesse jamais conhecido a humanidade), tiveram sempre razão ao menos num ponto em que coincidem todos: a "morte de Deus" não produz o advento do super-homem, é uma mentira do Zaratustra alemão; o que ela produz, como se vem verificando ao longo deste nosso curto e enfatuado século, é o sistemático e sintomático massacre do homem pelo rato."

Bruno Tolentino

Wednesday, July 30, 2008

Fonética e história

Todos sabem que sou monarquista - e dos roxos. Enragé, como diriam os franceses. Sou um esteta e a Monarquia é a mais estetizada das formas de governo, além de funcionar na prática, argumento historicamente comprovado. Mas não é sobre as formas de governo que pretendo discorrer agora, mas sobre a história e seu impacto nas realidades correntes.

Utilizei o gancho da Monarquia porque foi uma mudança de dinastia, na Inglaterra, que desencadeou a transformação fonética no inglês falado hoje no Reino Unido. Quando à Casa de Hanover (alemã, portanto) coube assumir o trono inglês no início do século XVIII, por falta de herdeiros da Rainha Anne, coube a um parente distante a honra de levar o cetro e a coroa que um dia foram de Elizabeth I. Não que a Rainha não tivesse parentes mais próximos que pudessem sucedê-la, mas uma lei aprovada em 1701 (Act of Settlement) proibia que príncipes católicos assumissem o trono inglês. Assim é que recaiu sobre a protestante Sophia de Hanover, neta de James I e prima distante de Anne, a subida honra de reinar sobre os ingleses. Ocorre que Sophia veio a falecer antes de Anne e os direitos dinásticos foram transmitidos para seu filho George Louis (1660-1727).

O príncipe alemão foi coroado George I em 1714, aos 54 anos de idade. Como não falava inglês, trouxe consigo a fonética do alemão para a língua de Shakespeare. E, aos 54 anos, já não tinha a embocadura necessária para a pronúncia perfeita do novo idioma. A Corte, por sua vez, para não constranger o monarca, passou a adotar o sotaque germanizado do Rei, macaqueando a sua pronúncia e modificando para sempre o inglês falado nas ilhas britânicas. Eis porque aqui nos Estados Unidos a sonoridade é bastante diferente daquela do Reino Unido.

Os americanos costumam torcer o nariz para o sotaque britânico, que consideram afetado e indicativo de um certo orgulho imperial fora de tempo. É certo que qualquer idioma, quando mal falado, soa mesmo desagradável, desconfortável sobretudo para ouvidos estrangeiros. No caso específico do inglês britânico, quando bem falado possui uma sonoridade mais suave, menos estridente. Pode-se argumentar que seja a psicologia do distanciamento transposta para o idioma. Mas o fato é que a fonética incorporada no século XVIII modificou o inglês britânico, suavizando-o em comparação ao americano.

Essa tese pode ser facilmente verificada nos Estados Unidos, sobretudo pelo som estridente e incômodo das adolescentes americanas. Não que as inglesas (ou brasileiras) não possam ser igualmente escandalosas (na falta de termo melhor) na comunicação, mas o falar das americanas é excessivamente aberto, metálico, tremendamente desconfortável ao ouvido. Nas happy hour das jovens americanas, bastam duas taças de vinho para que a sonoridade se torne insuportável. Autênticas gralhas.

Sou um excêntrico mesmo, admito-o. Tenho ouvidos exigentíssimos. Identifico até desafinação em gravação de CD da Deutsche Grammophone. Eu sei, isso pode parecer loucura para 99.99% das pessoas. Mas a mim me incomoda. Não chega a estragar o meu dia, mas confesso sentir falta de George I em Nova York.

Tuesday, July 29, 2008

O canto da juriti

Eu ia andando pelo caminho
em pleno sertão, o cafezal tinha ficado lá longe...
Foi quando escutei o seu canto
que me pareceu o soluço sem fim da distância...

A ânsia de tudo o que é longo como as palmeiras.
A saudade de tudo o que é comprido como os rios...
O lamento de tudo o que é roxo como a tarde...
O choro de tudo o que fica chorando por estar longe...
bem longe.


Cassiano Ricardo

Monday, July 28, 2008

Uma rede na varanda

Sem saber por qual assunto iniciar este blog, afinal pretendo opinar sobre variados assuntos - sem quaisquer pretensões e preocupações acadêmicas -, como que dando pinceladas aleatórias sobre determinados temas, sejam musicais, políticos, filosóficos ou gastronômicos (afinal, também de pão vive o homem).

A freqüencia dos posts deverá variar conforme minha disponibilidade de tempo e sobretudo de inspiração. A vontade de escrever sempre existiu, mas o impulso era contido pelo excesso de autocrítica, sobretudo pelo fato de meus amigos (e colegas) mais chegados dominarem a pena com bastante mais galhardia do que eu. E nada me aterroriza mais que o ridículo, o pretensioso, o vazio de contéudo. E conteúdo é a coisa mais difícil hoje em dia. A internet nos oferece uma montanha de informações diariamente, mas toda essa informação disponível não nos torna mais preparados, apenas nos sufoca com notícias, editoriais, comentários e análises que não temos tempo para ler nem disposição para processar.

Por outro lado, o impulso de escrever é semelhante ao impulso da procriação, da projeção da identidade no tempo. Grande parte das conquistas (e tragédias) humanas decorrem dessa força atávica de vontade de permanência, de imortalidade. Essa é a força mais primitiva do homem, a força da biologia, dos genes que se querem perpetuar. Enfim, escrever é um impulso que, no meu caso, tem sido refreado pelo excesso de zelo. Escrever para quê? Não tenho nada a dizer. Tudo já está dito. Não há nada a acrescentar. Mas, escrever é um exercício cerebral e físico, e daí pode nascer a arte. E a arte pode salvar as pessoas: salvar não no sentido religioso, mas no sentido da expressão da alma, da visão que se tem do mundo e das coisas. Gostaria muitíssimo de poder fazer arte (sobretudo música), porque pela música parte da beleza se manifesta. E a beleza salva o mundo. Sem talento para fazer arte, pretendo apenas conversar comigo mesmo (por escrito) e com aqueles que porventura passem por este espaço virtual.

Como resido atualmente fora do Brasil, a distância da família e dos amigos não permite aquela troca constante de opiniões, seja na esfera familiar, seja no espaço público e das amizades mais próximas. Por isso, e em razão de solicitação do meu tio, resolvi criar este blog, mural que pretende servir de ponto de contato, uma espécie de bate-papo na varanda, onde todos possam se encontrar e aconchegar-se numa rede virtual. Despretensiosa como toda boa conversa de varanda.