Utilizei o gancho da Monarquia porque foi uma mudança de dinastia, na Inglaterra, que desencadeou a transformação fonética no inglês falado hoje no Reino Unido. Quando à Casa de Hanover (alemã, portanto) coube assumir o trono inglês no início do século XVIII, por falta de herdeiros da Rainha Anne, coube a um parente distante a honra de levar o cetro e a coroa que um dia foram de Elizabeth I. Não que a Rainha não tivesse parentes mais próximos que pudessem sucedê-la, mas uma lei aprovada em 1701 (Act of Settlement) proibia que príncipes católicos assumissem o trono inglês. Assim é que recaiu sobre a protestante Sophia de Hanover, neta de James I e prima distante de Anne, a subida honra de reinar sobre os ingleses. Ocorre que Sophia veio a falecer antes de Anne e os direitos dinásticos foram transmitidos para seu filho George Louis (1660-1727).
O príncipe alemão foi coroado George I em 1714, aos 54 anos de idade. Como não falava inglês, trouxe consigo a fonética do alemão para a língua de Shakespeare. E, aos 54 anos, já não tinha a embocadura necessária para a pronúncia perfeita do novo idioma. A Corte, por sua vez, para não constranger o monarca, passou a adotar o sotaque germanizado do Rei, macaqueando a sua pronúncia e modificando para sempre o inglês falado nas ilhas britânicas. Eis porque aqui nos Estados Unidos a sonoridade é bastante diferente daquela do Reino Unido.
Os americanos costumam torcer o nariz para o sotaque britânico, que consideram afetado e indicativo de um certo orgulho imperial fora de tempo. É certo que qualquer idioma, quando mal falado, soa mesmo desagradável, desconfortável sobretudo para ouvidos estrangeiros. No caso específico do inglês britânico, quando bem falado possui uma sonoridade mais suave, menos estridente. Pode-se argumentar que seja a psicologia do distanciamento transposta para o idioma. Mas o fato é que a fonética incorporada no século XVIII modificou o inglês britânico, suavizando-o em comparação ao americano.
Essa tese pode ser facilmente verificada nos Estados Unidos, sobretudo pelo som estridente e incômodo das adolescentes americanas. Não que as inglesas (ou brasileiras) não possam ser igualmente escandalosas (na falta de termo melhor) na comunicação, mas o falar das americanas é excessivamente aberto, metálico, tremendamente desconfortável ao ouvido. Nas happy hour das jovens americanas, bastam duas taças de vinho para que a sonoridade se torne insuportável. Autênticas gralhas.
Sou um excêntrico mesmo, admito-o. Tenho ouvidos exigentíssimos. Identifico até desafinação em gravação de CD da Deutsche Grammophone. Eu sei, isso pode parecer loucura para 99.99% das pessoas. Mas a mim me incomoda. Não chega a estragar o meu dia, mas confesso sentir falta de George I em Nova York.