Wednesday, July 30, 2008

Fonética e história

Todos sabem que sou monarquista - e dos roxos. Enragé, como diriam os franceses. Sou um esteta e a Monarquia é a mais estetizada das formas de governo, além de funcionar na prática, argumento historicamente comprovado. Mas não é sobre as formas de governo que pretendo discorrer agora, mas sobre a história e seu impacto nas realidades correntes.

Utilizei o gancho da Monarquia porque foi uma mudança de dinastia, na Inglaterra, que desencadeou a transformação fonética no inglês falado hoje no Reino Unido. Quando à Casa de Hanover (alemã, portanto) coube assumir o trono inglês no início do século XVIII, por falta de herdeiros da Rainha Anne, coube a um parente distante a honra de levar o cetro e a coroa que um dia foram de Elizabeth I. Não que a Rainha não tivesse parentes mais próximos que pudessem sucedê-la, mas uma lei aprovada em 1701 (Act of Settlement) proibia que príncipes católicos assumissem o trono inglês. Assim é que recaiu sobre a protestante Sophia de Hanover, neta de James I e prima distante de Anne, a subida honra de reinar sobre os ingleses. Ocorre que Sophia veio a falecer antes de Anne e os direitos dinásticos foram transmitidos para seu filho George Louis (1660-1727).

O príncipe alemão foi coroado George I em 1714, aos 54 anos de idade. Como não falava inglês, trouxe consigo a fonética do alemão para a língua de Shakespeare. E, aos 54 anos, já não tinha a embocadura necessária para a pronúncia perfeita do novo idioma. A Corte, por sua vez, para não constranger o monarca, passou a adotar o sotaque germanizado do Rei, macaqueando a sua pronúncia e modificando para sempre o inglês falado nas ilhas britânicas. Eis porque aqui nos Estados Unidos a sonoridade é bastante diferente daquela do Reino Unido.

Os americanos costumam torcer o nariz para o sotaque britânico, que consideram afetado e indicativo de um certo orgulho imperial fora de tempo. É certo que qualquer idioma, quando mal falado, soa mesmo desagradável, desconfortável sobretudo para ouvidos estrangeiros. No caso específico do inglês britânico, quando bem falado possui uma sonoridade mais suave, menos estridente. Pode-se argumentar que seja a psicologia do distanciamento transposta para o idioma. Mas o fato é que a fonética incorporada no século XVIII modificou o inglês britânico, suavizando-o em comparação ao americano.

Essa tese pode ser facilmente verificada nos Estados Unidos, sobretudo pelo som estridente e incômodo das adolescentes americanas. Não que as inglesas (ou brasileiras) não possam ser igualmente escandalosas (na falta de termo melhor) na comunicação, mas o falar das americanas é excessivamente aberto, metálico, tremendamente desconfortável ao ouvido. Nas happy hour das jovens americanas, bastam duas taças de vinho para que a sonoridade se torne insuportável. Autênticas gralhas.

Sou um excêntrico mesmo, admito-o. Tenho ouvidos exigentíssimos. Identifico até desafinação em gravação de CD da Deutsche Grammophone. Eu sei, isso pode parecer loucura para 99.99% das pessoas. Mas a mim me incomoda. Não chega a estragar o meu dia, mas confesso sentir falta de George I em Nova York.

Tuesday, July 29, 2008

O canto da juriti

Eu ia andando pelo caminho
em pleno sertão, o cafezal tinha ficado lá longe...
Foi quando escutei o seu canto
que me pareceu o soluço sem fim da distância...

A ânsia de tudo o que é longo como as palmeiras.
A saudade de tudo o que é comprido como os rios...
O lamento de tudo o que é roxo como a tarde...
O choro de tudo o que fica chorando por estar longe...
bem longe.


Cassiano Ricardo

Monday, July 28, 2008

Uma rede na varanda

Sem saber por qual assunto iniciar este blog, afinal pretendo opinar sobre variados assuntos - sem quaisquer pretensões e preocupações acadêmicas -, como que dando pinceladas aleatórias sobre determinados temas, sejam musicais, políticos, filosóficos ou gastronômicos (afinal, também de pão vive o homem).

A freqüencia dos posts deverá variar conforme minha disponibilidade de tempo e sobretudo de inspiração. A vontade de escrever sempre existiu, mas o impulso era contido pelo excesso de autocrítica, sobretudo pelo fato de meus amigos (e colegas) mais chegados dominarem a pena com bastante mais galhardia do que eu. E nada me aterroriza mais que o ridículo, o pretensioso, o vazio de contéudo. E conteúdo é a coisa mais difícil hoje em dia. A internet nos oferece uma montanha de informações diariamente, mas toda essa informação disponível não nos torna mais preparados, apenas nos sufoca com notícias, editoriais, comentários e análises que não temos tempo para ler nem disposição para processar.

Por outro lado, o impulso de escrever é semelhante ao impulso da procriação, da projeção da identidade no tempo. Grande parte das conquistas (e tragédias) humanas decorrem dessa força atávica de vontade de permanência, de imortalidade. Essa é a força mais primitiva do homem, a força da biologia, dos genes que se querem perpetuar. Enfim, escrever é um impulso que, no meu caso, tem sido refreado pelo excesso de zelo. Escrever para quê? Não tenho nada a dizer. Tudo já está dito. Não há nada a acrescentar. Mas, escrever é um exercício cerebral e físico, e daí pode nascer a arte. E a arte pode salvar as pessoas: salvar não no sentido religioso, mas no sentido da expressão da alma, da visão que se tem do mundo e das coisas. Gostaria muitíssimo de poder fazer arte (sobretudo música), porque pela música parte da beleza se manifesta. E a beleza salva o mundo. Sem talento para fazer arte, pretendo apenas conversar comigo mesmo (por escrito) e com aqueles que porventura passem por este espaço virtual.

Como resido atualmente fora do Brasil, a distância da família e dos amigos não permite aquela troca constante de opiniões, seja na esfera familiar, seja no espaço público e das amizades mais próximas. Por isso, e em razão de solicitação do meu tio, resolvi criar este blog, mural que pretende servir de ponto de contato, uma espécie de bate-papo na varanda, onde todos possam se encontrar e aconchegar-se numa rede virtual. Despretensiosa como toda boa conversa de varanda.